Era um mundo
(Prefácio)
João Bernardo
É comum os
autores aproveitarem os prefácios para corrigir os erros, ou o que
lhes parece serem erros, dos textos reeditados. Mais frequente ainda
é aproveitarem para explicar que mudaram de ideias quanto a isto e
aquilo. Não vou fazer nada disso, mas previno o leitor de outra
coisa, muitíssimo mais importante:
Com excepção
do ensaio apresentado em anexo, Gestores,
Estado e Capitalismo de Estado,
as páginas deste livro referem-se a um mundo que já não existe.
Era um mundo
onde o toyotismo começava a dispersar fisicamente a força de
trabalho que antes o fordismo concentrara nas mesmas instalações,
fossem industriais ou de serviços, mas sem que essa dispersão
tivesse ainda alterado substancialmente o quadro em que os
trabalhadores estabeleciam relações de solidariedade. A uberização
foi o decisivo passo em frente no processo iniciado pelo toyotismo. E
num sistema em que os trabalhadores se relacionam apenas, ou quase,
mediante uma rede computorizada cujo centro é ocupado exclusivamente
pela administração da empresa, como será possível fundar um novo
campo de relações solidárias que não seja meramente virtual?
Era um mundo
onde a concentração no processo de trabalho oferecia uma base
sólida para se lutar pela ultrapassagem da miríade de divisões
sexuais, de tons de pele, de culturas. Onde a internacionalização
do capital e depois a sua transnacionalização convertiam o
internacionalismo, de aspiração futura, em verosímil projecto
imediato. Um mundo onde a incipiente dispersão física da força de
trabalho não diluíra ainda a noção de que ser trabalhador é o
facto decisivo e que neste facto se funda a possível consciência de
que existe uma classe, consolidada por elos de solidariedade. Mas os
identitarismos e, mais grave ainda, a tendência à proliferação
crescente de identitarismos tornaram-se a ideologia adequada à
uberização da força de trabalho e reforçam a sua dispersão
física. E se não sabemos como fundar neste sistema de trabalho um
novo campo de relações solidárias, como saberemos proceder a uma
crítica eficaz, porque prática, dos identitarismos?
Era um mundo
em que predominava a consciência da clivagem entre os que trabalham
e os que aproveitam o trabalho dos outros, entre os que não têm
possibilidade de gerir o seu próprio tempo de trabalho e os que
gerem o tempo de trabalho alheio. Mas a hegemonia adquirida pelos
identitarismos, ao dissolver a noção de classe trabalhadora, serviu
de fundamento à multiplicação de mecanismos capitalistas no
interior de cada identidade. Como poderemos lutar contra um
identitarismo que é supraclassista não só no verniz da ideologia
mas, mais drasticamente, nos alicerces económicos, reforçando assim
o capitalismo?
Era um mundo
onde a concentração física da força de trabalho, que lhe impunha
a necessidade de ultrapassar as divisões de sexo, de cor ou de
cultura, constituía a base para reivindicar o fim das censuras e o
direito de expressão. Um mundo onde não só os poucos profissionais
das artes mas ainda os muitíssimos mais que se esforçavam por
inventar uma certa arte de viver rompiam com os puritanismos e
transformavam o escândalo num estilo. Mas a multiplicidade de
identitarismos veio erguer novas censuras e novos impedimentos, cada
um os seus. E como poderemos ludibriar esta teia de obstáculos para
reatar um pensamento crítico?
Era um mundo
onde as aspirações anticapitalistas ou tomavam como modelo o
comunismo soviético ou o comunismo chinês ou, repudiando qualquer
deles, procuravam inspiração nas relações de solidariedade
práticas instauradas aqui e ali, um pouco por todo o lado, em
processos de ocupação e autogestão dos locais de trabalho. Um
mundo onde o anticapitalismo, como quer que fosse entendido, se
referia à base da sociedade. Como poderemos reconstruir agora o
anticapitalismo com trabalhadores dispersos pela uberização,
fragmentados pelos identitarismos, mobilizados pelos novos mecanismos
capitalistas que sustentam a base de cada identidade, enleados pelas
novas censuras do politicamente correcto?
Na história,
como em muitas outras coisas, o que morre não ressuscita. As páginas
deste livro referem-se a um mundo morto e enterrado. Quando as
escrevi, procurei escrevê-las como uma análise da história. Hoje,
ao passar os olhos por elas, entendo-as como parte da própria
história, que necessitam de uma análise. Mas qual?
O mundo que
morreu não se limitou a morrer. Morreu de uma dada forma e foi
substituído por dados problemas, e tanto uma como os outros
constituem o terreno sobre o qual, queiramos ou não, vivemos e somos
obrigados a agir. Uma certeza devemos ter, e é a única — que é
nocivo tomar como modelo o que está morto, que é inútil
reconstruir o que foi enterrado. Mas esta certeza não nos adianta
muito, porque para a prática nova nós dispomos apenas das palavras
antigas. A revolução francesa fez-se com o vocabulário político
greco-romano, a revolução russa de Outubro com o vocabulário da
revolução francesa e aquele vasto movimento a que usualmente se
chama Maio de 68 usou o vocabulário da revolução russa. Este
retardamento da história que se conhece relativamente à história
que se faz é a nossa condenação. Será que alguma coisa se pode
salvar?
Se alguma
coisa se salva, talvez seja aquela que para mim é a mais importante,
a noção de que a forma é o verdadeiro conteúdo. Esta é uma noção
de origem estética, esboçada pelos dandies
do século XIX e aplicada sistematicamente no século XX pelos
neoplasticistas e pelos seus continuadores, e que preside a todas as
minhas análises dos movimentos sociais. É a forma das relações
que determina as suas potencialidades e as linhas de desenvolvimento
possíveis. É a forma das relações estabelecidas numa dada luta
que determina a sua capacidade para romper, ou não, com os sistemas
de organização capitalistas, para fundar um relacionamento
igualitário ou para reproduzir novas burocracias, para passar além
ou para envernizar com outros tons o presente.
É nestes
termos que, procurando libertar-me do mundo morto, tento perceber os
contornos do mundo em que agora vivo.
Novembro de
2018
ÍNDICE
p.9 - PREFÁCIO
p.13 - ECONOMIA E
POLÍTICA DA CLASSE DOMINANTE (1975)
p.75 - A PROPÓSITO DA
TEORIA DO MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA (1977)
p.88
- O DINHEIRO: DA REIFICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS ATÉ O
FETICHISMO DO DINHEIRO (1983)
p.117 - A AUTONOMIA NAS
LUTAS OPERÁRIAS (1986)
p.140 - A PROPÓSITO DA
ECONOMIA DOS CONFLITOS SOCIAIS (1992)
p.146 - AUTONOMIA DOS
TRABALHADORES, ESTADO E MERCADO MUNDIAL (1994)
p.156 - PRÁTICA,
IDEOLOGIA E AUTONOMIA OPERÁRIA / ENTREVISTA COM A REVISTA RUPTURA
(2009-2011)
p.174 - EPÍLOGO E
PREFÁCIO (2009)
[ANEXO]
p.200 - GESTORES,
ESTADO E CAPITALISMO DE ESTADO
(1985)
p.242
- BIBLIOGRAFIA DO AUTOR
p.245
-
ÍNDICE
DE NOMES E ASSUNTOS
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Prefácio
Bibliografia, índices de nomes e assuntos brochado 253 págs - 16€