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mardi 26 mars 2019

Era um mundo - Prefácio / João Bernardo

Era um mundo

(Prefácio)
João Bernardo
É comum os autores aproveitarem os prefácios para corrigir os erros, ou o que lhes parece serem erros, dos textos reeditados. Mais frequente ainda é aproveitarem para explicar que mudaram de ideias quanto a isto e aquilo. Não vou fazer nada disso, mas previno o leitor de outra coisa, muitíssimo mais importante:

Com excepção do ensaio apresentado em anexo, Gestores, Estado e Capitalismo de Estado, as páginas deste livro referem-se a um mundo que já não existe.

Era um mundo onde o toyotismo começava a dispersar fisicamente a força de trabalho que antes o fordismo concentrara nas mesmas instalações, fossem industriais ou de serviços, mas sem que essa dispersão tivesse ainda alterado substancialmente o quadro em que os trabalhadores estabeleciam relações de solidariedade. A uberização foi o decisivo passo em frente no processo iniciado pelo toyotismo. E num sistema em que os trabalhadores se relacionam apenas, ou quase, mediante uma rede computorizada cujo centro é ocupado exclusivamente pela administração da empresa, como será possível fundar um novo campo de relações solidárias que não seja meramente virtual?

Era um mundo onde a concentração no processo de trabalho oferecia uma base sólida para se lutar pela ultrapassagem da miríade de divisões sexuais, de tons de pele, de culturas. Onde a internacionalização do capital e depois a sua transnacionalização convertiam o internacionalismo, de aspiração futura, em verosímil projecto imediato. Um mundo onde a incipiente dispersão física da força de trabalho não diluíra ainda a noção de que ser trabalhador é o facto decisivo e que neste facto se funda a possível consciência de que existe uma classe, consolidada por elos de solidariedade. Mas os identitarismos e, mais grave ainda, a tendência à proliferação crescente de identitarismos tornaram-se a ideologia adequada à uberização da força de trabalho e reforçam a sua dispersão física. E se não sabemos como fundar neste sistema de trabalho um novo campo de relações solidárias, como saberemos proceder a uma crítica eficaz, porque prática, dos identitarismos?

Era um mundo em que predominava a consciência da clivagem entre os que trabalham e os que aproveitam o trabalho dos outros, entre os que não têm possibilidade de gerir o seu próprio tempo de trabalho e os que gerem o tempo de trabalho alheio. Mas a hegemonia adquirida pelos identitarismos, ao dissolver a noção de classe trabalhadora, serviu de fundamento à multiplicação de mecanismos capitalistas no interior de cada identidade. Como poderemos lutar contra um identitarismo que é supraclassista não só no verniz da ideologia mas, mais drasticamente, nos alicerces económicos, reforçando assim o capitalismo?

Era um mundo onde a concentração física da força de trabalho, que lhe impunha a necessidade de ultrapassar as divisões de sexo, de cor ou de cultura, constituía a base para reivindicar o fim das censuras e o direito de expressão. Um mundo onde não só os poucos profissionais das artes mas ainda os muitíssimos mais que se esforçavam por inventar uma certa arte de viver rompiam com os puritanismos e transformavam o escândalo num estilo. Mas a multiplicidade de identitarismos veio erguer novas censuras e novos impedimentos, cada um os seus. E como poderemos ludibriar esta teia de obstáculos para reatar um pensamento crítico?

Era um mundo onde as aspirações anticapitalistas ou tomavam como modelo o comunismo soviético ou o comunismo chinês ou, repudiando qualquer deles, procuravam inspiração nas relações de solidariedade práticas instauradas aqui e ali, um pouco por todo o lado, em processos de ocupação e autogestão dos locais de trabalho. Um mundo onde o anticapitalismo, como quer que fosse entendido, se referia à base da sociedade. Como poderemos reconstruir agora o anticapitalismo com trabalhadores dispersos pela uberização, fragmentados pelos identitarismos, mobilizados pelos novos mecanismos capitalistas que sustentam a base de cada identidade, enleados pelas novas censuras do politicamente correcto?

Na história, como em muitas outras coisas, o que morre não ressuscita. As páginas deste livro referem-se a um mundo morto e enterrado. Quando as escrevi, procurei escrevê-las como uma análise da história. Hoje, ao passar os olhos por elas, entendo-as como parte da própria história, que necessitam de uma análise. Mas qual?

O mundo que morreu não se limitou a morrer. Morreu de uma dada forma e foi substituído por dados problemas, e tanto uma como os outros constituem o terreno sobre o qual, queiramos ou não, vivemos e somos obrigados a agir. Uma certeza devemos ter, e é a única — que é nocivo tomar como modelo o que está morto, que é inútil reconstruir o que foi enterrado. Mas esta certeza não nos adianta muito, porque para a prática nova nós dispomos apenas das palavras antigas. A revolução francesa fez-se com o vocabulário político greco-romano, a revolução russa de Outubro com o vocabulário da revolução francesa e aquele vasto movimento a que usualmente se chama Maio de 68 usou o vocabulário da revolução russa. Este retardamento da história que se conhece relativamente à história que se faz é a nossa condenação. Será que alguma coisa se pode salvar?

Se alguma coisa se salva, talvez seja aquela que para mim é a mais importante, a noção de que a forma é o verdadeiro conteúdo. Esta é uma noção de origem estética, esboçada pelos dandies do século XIX e aplicada sistematicamente no século XX pelos neoplasticistas e pelos seus continuadores, e que preside a todas as minhas análises dos movimentos sociais. É a forma das relações que determina as suas potencialidades e as linhas de desenvolvimento possíveis. É a forma das relações estabelecidas numa dada luta que determina a sua capacidade para romper, ou não, com os sistemas de organização capitalistas, para fundar um relacionamento igualitário ou para reproduzir novas burocracias, para passar além ou para envernizar com outros tons o presente.

É nestes termos que, procurando libertar-me do mundo morto, tento perceber os contornos do mundo em que agora vivo.

Novembro de 2018


ÍNDICE

p.9 - PREFÁCIO

p.13 - ECONOMIA E POLÍTICA DA CLASSE DOMINANTE (1975)

p.75 - A PROPÓSITO DA TEORIA DO MODO DE PRODUÇÃO COMUNISTA (1977)

p.88 - O DINHEIRO: DA REIFICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS ATÉ O FETICHISMO DO DINHEIRO (1983)

p.117 - A AUTONOMIA NAS LUTAS OPERÁRIAS (1986)

p.140 - A PROPÓSITO DA ECONOMIA DOS CONFLITOS SOCIAIS (1992)

p.146 - AUTONOMIA DOS TRABALHADORES, ESTADO E MERCADO MUNDIAL (1994)
p.156 - PRÁTICA, IDEOLOGIA E AUTONOMIA OPERÁRIA / ENTREVISTA COM A REVISTA RUPTURA (2009-2011)

p.174 - EPÍLOGO E PREFÁCIO (2009)

[ANEXO]

p.200 - GESTORES, ESTADO E CAPITALISMO DE ESTADO (1985)

p.242 - BIBLIOGRAFIA DO AUTOR

p.245 - ÍNDICE DE NOMES E ASSUNTOS 




Publicaçõe papel (Tiragem limitada) pdf (livre)
Vosstanie Éditions Março 2019
Prefácio
Bibliografia, índices de nomes e assuntos brochado 253 págs - 16€


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