Diffusion: LA LUTTE DES CLASSES PENDANT LA LA RÉVOLUTION FRANÇAISE (1ere partie 1789)

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vendredi 19 avril 2013

Circunstâncias…Jorge Valadas

Os animadores do círculo Vosstanie - alguns dos quais ligados à história social de Portugal por via da experiência da emigração em França – colocaram na Internet [http://vosstanie.blogspot.fr/] os textos da revista Cadernos de Circunstância (Paris, 1967-1970).

Circunstâncias…




I



A 5 de julho de 2012, António Vilarigues (A.V.), figura importante do partido comunista português, publica no jornal do partido, Avante, o texto «Algumas notas sobre o óbvio», no qual critica « alguns radicais pequeno-burgueses (que) descobriram duas teses espantosas: os partidos comunistas são «nacionalistas de esquerda», e, logo são incapazes de políticas internacionalistas ». Segundo o autor, estes «radicais pequeno-burgueses» falam « em contradições insanáveis entre o nacional e o internacional na luta dos trabalhadores ». A.V. sublinha que « os progressos realizados pelos povos da União Soviética e dos outros países socialistas provam a superioridade do modo de produção socialista em relação ao capitalista». « Em praticament todos os países onde se verificaram revoluções socialistas foi impressionante o desenvolvimento das forças productivas nomeadamente na industria e agricultura. As evoluções negativas verificadas, fruto de erros internos e da acção externa do capital e do imperialismo [...] não contradizem estes factos. Por muito que isso custe aos “nossos” radicais pequeno-burgueses»

Assim, em 2012, voltamos a ouvir estas afirmações barrocas. Alguns partidos comunistas europeus – cujo caso mais paradigmático é o do partido comunista grego, o KKE -, debilitados na sequência do colapso do bloco capitalista de Estado, encontram um novo fôlego num nacionalismo antieuropeu, espoletado pela decomposição social das sociedades em crise.


António Vilarigues, com a sua diatribe contra os «radicais pequeno-burgueses» efetua provavelmente um ajuste de contas no interior da sua própria organização. De um modo mais geral, responde à crítica que é feita ao partido comunista de resvalar para a defesa de posições nacionalistas suscetíveis de conduzir a uma convergência com as correntes da direita patriótica, uma tendência que se pode observar desde há anos na Rússia com a emergência do nacional-bolchevismo e, mais recentemente, na Grécia. A retórica marxizante e o culto do progresso económico, do produtivismo e das forças produtivas, essa vulgata bolchevique que entende o internacionalismo como uma adição de socialismos nacionais, envolvem a reivindicação de um hipotético retorno do país de Camões à «independência nacional», concretizado por uma saída unilateral do Euro, uma ideia de recuo nacional que contamina toda a velha esquerda impotente perante a crise. No espírito dos chefes neo-estalinistas, tratar-se-ia de uma etapa benéfica para o seu reforço. Não lhes passa sequer pela cabeça que o único caminho para uma emancipação dos explorados em Portugal possa porventura residir antes do mais numa união com os outros revoltados europeus e ibéricos, ao contrário de um retorno à suposta «independência nacional» e ao culto do patriotismo. 

António Vilarigues e os seus camaradas podem vir a ver-se fora da zona Euro, não em consequência de uma improvável ação de massas sob a direção do partido, mas simplesmente por via do desenvolvimento da crise do capitalismo e das decisões dos seus gestores, com todo o seu cortejo de horrores, de autoritarismo político, de violências e de nacionalismos exacerbados.


Para fundamentar as suas afirmações, A.V. recorre a um texto que Álvaro Cunhal publicou em 1970, « O Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista». O dirigente histórico do PCP tinha o dom dos títulos cativantes. Em 2012, A.V. atualiza o texto ao gosto do momento presente: « Commo salientou o camarada Álvaro Cunhal [...], a radicalisaçãão política da pequena burguesia, fruto do desenvolvimento do capitalismo, é um fenómeno positivo. Entretanto, essa radicalisação é também acompanhada por fenomenos negativos», designadamente, especifica A.V., «hesitações», «contradições», «desvios de direita e de esquerda», «manifestações de impaciência e de desespero», tudo sintomas de doença grave, de que estariam protegidos aquelas e aqueles que seguem as posições do partido, que podem variar de acordo com as oscilações da linha, sempre com o fito de um desenvolvimento harmonioso das forças produtivas nacionais.


Presentemente, o partido comunista português e a central sindical dirigida pelos seus partidários, a CGTP, têm dificuldade em readquirir um peso político numa sociedade esmagada pelos efeitos da crise, pelas medidas de austeridade e de recessão implementadas pelos sucessivos governos, de esquerda e de direita. A sua base está desmoralizada por um sentimento de impotência, desorientada com a ineficácia da ação partidária e sindical a que estava habituada. Até parece que os sintomas que A.V. atribui ao «radicalismo pequeno-burguês» acabam por ser aqueles de que padece hoje o povo comunista. Ao mesmo tempo, verifica-se uma radicalização de setores da sociedade, tentados por novas formas de mobilização independentes, de onde se eleva uma crítica da «democracia realmente inexistente» e da decadência da vida política tradicional. Na juventude, observa-se um interesse pela democracia de base, e mesmo pelas ideias do anticapitalismo. A tal ponto que o serviço de ordem do sindicato maioritário se vê obrigado a «proteger» os seus cortejos do contacto com estes jovens anticapitalistas que fazem ouvir a sua voz e propõem uma reflexão sobre o estado do mundo que ultrapasse as fronteiras de um pequeno país em ruínas. Mais grave ainda, eis que franjas dos explorados até aqui habituados a desfilar docilmente atrás dos chefes se cansam das manifestações indigentes, das greves gerais com pouca adesão e das encantações repetitivas dos parlamentares comunistas, e se decidem a agir de forma direta e muito pouco sensata, agredindo em termos verbais, e mesmo físicos, ministros em deslocação e inclusivamente o corrupto presidente da república, semeando o medo nessa nobreza democrática que teme o incontrolável. E as gigantescas manifestações de 15 de setembro de 2012 por pouco não culminaram na invasão do parlamento em Lisboa aos gritos de «O povo unido não precisa de partidos!». Em resumo, o partido comunista está paralisado, obrigado a ir atrás da cólera da rua, perante uma situação que se degrada constantemente. Isto explica o sobressalto de António Vilarigues, que procura tranquilizar as suas tropas apontando um perigo, invocando a este propósito a fórmula oca do «radicalismo pequeno-burguês ».


O texto citado por A.V. do dirigente estalinista lusitano Álvaro Cunhal foi publicado dois anos depois de maio de 68, num momento em que o partido estava também a braços com uma contestação e uma radicalização de setores da juventude e da classe operária. Pela primeira vez na sua história, o partido, ainda na clandestinidade, tinha de responder a uma crítica de esquerda da sua tática da «revolução democrática» e de aliança com a burguesia anti-salazarista. As circunstâncias mudavam rapidamente, alteradas por um descontentamento social e uma revolta da juventude estudantil contra o colonialismo, impregnada das ideias de maio de 68. A guerra colonial, interminável, mortífera e impopular, que se desenrolava em três frentes em África (Guiné-Bissau, Angola e Moçambique) havia acelerado a crise política de um regime fascizante anacrónico que começava a incomodar alguns setores da burguesia local e uma Europa capitalista em formação. Enquanto o partido comunista continuava a defender a necessidade de a juventude cumprir o serviço militar (e portanto a guerra) com o objetivo tático de infiltrar a instituição militar, as deserções e a resistência à guerra tornavam-se um fenómeno de massas e criavam uma corrente de emigração política para a Europa, sobretudo para França, onde as redes da emigração dita económica constituíam um apoio para os recém-chegados. Em Portugal, o ativismo da corrente maoista e as suas propostas de afrontamento total com a burguesia e de fim imediato do colonialismo e da guerra encontrava um eco nos meios operários agitados por movimentos de greve. Grupos à esquerda do partido faziam ações de sabotagem contra a máquina militar, e a juventude politizada escapava progressivamente ao controlo do partido comunista. É neste novo contexto que surgem grupos e publicações que se reclamam do marxismo e se afirmam em rutura com a linha do partido. A maioria posicionou-se na área de influência do maoismo, outros assumiram a ideologia castro-guevarista – tida como menos reformista e burocrática – outras ainda propuseram-se fazer a crítica do marxismo-leninismo. Entre estes últimos, a revista Cadernos de Circunstância (CC), publicada em Paris, teve uma influência importante nos meios do exílio e, depois, em setores da juventude estudantil em Portugal, o que lhe valeu ter ficado na mira do texto de Álvaro Cunhal, enquanto exemplo da famosa «radicalidade pequeno-bourguesa».


 II



Participei na vida do grupo dos CC, de 1968 até à sua dissolução em 1970. As informações e reflexões que aqui apresento só me comprometem a mim, e se por vezes sou levado à utilização do «nós», tudo o que digo deve ser entendido como expresso na primeira pessoa. Não escrevo estes apontamentos com qualquer preocupação de mundanalidade (quem foi quem e quem é que se tornou o quê…), o que seria desprovido de significado e de interesse, nem sequer animado por qualquer espírito de arquivista académico. Faço-o com o objetivo de contribuir para colocar o trabalho deste grupo na perspetiva da história das ideias radicais dos anos 60 e 70 do século passado e de ajudar o leitor de hoje a reapropriar-se destes textos de uma maneira ativa, aberta ao presente e aos seus desenvolvimentos. 

Os textos dos CC refletem as questões que se nos colocavam na época. Algumas das análises ver-se-iam confirmadas posteriormente, outras não. Dito isto, existe uma filiação entre as posições do marxismo antiautoritário defendidas pelos CC e as aspirações dos movimentos que se radicalizam hoje perante os efeitos devastadores da crise capitalista e a desestruturação das sociedades, do mesmo modo que as posições e as análises de Álvaro Cunhal em 1970 se encontram no modo de funcionamento do partido comunista nos nossos dias, cujos princípios políticos não mudaram nem uma vírgula. 


O primeiro número dos CC foi publicado em Paris, em novembro de 1967, editado por um grupo de que faziam parte Alfredo Margarido, Aquiles de Oliveira, Fernando C. Medeiros, João Rocha, José Porto e Manuel Villaverde Cabral. Alberto Melo e José dos Santos juntar-se-lhes-iam posteriormente. Pela minha parte, fugindo à asfixia mortífera da sociedade salazarista, desertor das forças armadas coloniais, cheguei a Paris no outono de 1967 e, poucos dias depois, descobri a revista na livraria La Joie de lire. Logo que estabeleci o contacto, fui imediatamente integrado na vida do grupo, na qual me empenhei plenamente e apaixonadamente até a aventura ter chegado ao fim. O texto «Para uma análise das Forças Armadas em Portugal», reflexão sobre a minha experiência de quatro anos na instituição militar, foi publicado no número 4/5, de novembro de 1968. 

Tinha acabado de me inserir na vida do círculo dos CC quando o turbilhão do movimento de Maio de 68 veio alterar de cima a baixo a atividade e as perspetivas do nosso trabalho. O espírito dos CC libertou-se então da estreiteza provinciana e nacionalista, e essa posição, juntamente com a rejeição incondicional do colonialismo e da sua guerra, era partilhada pela nossa pequena coletividade. Creio poder falar aqui na primeira pessoa do plural: jamais vivemos o Maio de 68 colocando-nos de fora, com o olhar de exilados portugueses, mas, sim, como exilados totalmente empenhados num movimento emancipador que ultrapassava as preocupações nacionais. Tínhamos consciência de que as consequências do movimento em curso, a sua dinâmica internacional, iriam necessariamente acelerar o fim do regime iníquo e bárbaro que vigorava em Portugal. Ele punha bem a nu o lado timorato da oposição democrática e antifascista, tema privilegiado dos partidos da esquerda clássica. Não foi por acaso que o subtítulo da revista, Análise e documentos da vida portuguesa, desapareceu da capa depois de maio de 68. Assim, não procurámos investir as diversas instituições portuguesas de Paris (como a Maison du Portugal da cidade universitária, ocupada por camaradas estudantes, alguns dos quais viriam mais tarde a aproximar-se das nossas posições). Preferimos inserir-nos no movimento e nas suas organizações autónomas, desde a Sorbonne até aos Comités Etudiants-travailleurs de Censier. E fizemo-lo em termos individuais, com toda a independência e autonomia de opções, alguns mais do que outros, sem espírito de grupo nem sectarismo de capela. Com efeito, embora existisse um coletivo dos CC, era difícil considerá-lo um grupo no sentido tradicional. Haviam-se estabelecido laços pessoais mais próximos entre alguns de nós que, bem entendido, se fortaleceram com a nossa participação no movimento.




Antes de maio de 68, os membros dos CC interessavam-se pelas correntes dissidentes do marxismo, liam e debatiam revistas como Socialisme ou Barbarie, Arguments, ou L’Homme et la Société. Estavam igualmente atentos aos escritos de Guy Debord e da revista Internationale Situationniste. Alguns exilados de Portugal e das colónias portuguesas acompanhavam também a atividade de grupos como Pouvoir Ouvrier, saído de Socialisme ou Barbarie. O pequeno círculo era igualmente sensível à corrente surrealista que alargava o campo do pensamento radical. Sobretudo Alfredo Margarido mantinha contactos com o grupo surrealista português. Existia - falo por mim mas creio que era comum a todos - uma curiosidade sem limites, um sentimento entusiasmante de descobrir um mundo de ideias e de experiências que nos havia sido ocultado e que nos transportava para o futuro. Antes da minha vinda para Paris, tinha lido o Manifesto Comunista e O Estado e a Revolução em más traduções brasileiras. E, quanto a literatura politica, era tudo! E agora via-me mergulhado num universo de ideias e de leituras de que me tinha de pôr a par. Havia nessa altura em Paris a livraria La Vieille Taupe, uma espécie de caverna pré-histórica cheia de livros poeirentos, onde se podia encontrar os textos malditos do marxismo e muitos outros. Mal se transpunha a porta estava-se perante pessoas que discursavam, argumentavam, debatiam, de forma exaltada em torno de questões políticas que todos consideravam essenciais. Villaverde Cabral era, de nós todos, o que mais facilmente acedia a esses meios e fazia-nos participar dessa superabundância de ideias e de debates. No que me diz respeito, do alto dos meus 22 anos e malgrado o orgulho do meu ato de liberdade que havia mudado a minha vida e me projetara no mundo, reduzia-me à minha insignificância diante de tanta riqueza e entusiasmo. Acompanhava tudo, absorvia e refletia. Diga-se de passagem que a grande maioria daqueles que frequentavam então a livraria não tem nada a ver com a evolução posterior do proprietário do local e de alguns dos seus acólitos que enveredaram pelo cretinismo revisionista e negacionista. Mas essa é outra história…



III



Maio de 68, o movimento estudantil e a greve geral, foram um furacão, um terramoto. E foi ainda mais emocionante para aqueles que, como nós, viviam a política de uma maneira autónoma e independente, fora das organizações tradicionais. Num ápice vi-me envolvido, juntamente com Villaverde Cabral e Fernando Medeiros, no tumulto dos Comités d’action travailleurs-étudiants que se haviam instalado no triste edifício da faculdade de Censier, que se tornou uma verdadeira colmeia subversiva. Ao acaso das comissões, das reuniões, dos encontros e das ações, sou erigido em tradutor para português dos panfletos do comité de ação do edifício. Mantínhamos o contacto entre nós, víamo-nos entre as manifestações, os combates de rua, as distribuições de panfletos ou as intervenções diante desta ou daquela fábrica. Mas pode dizer-se que, durante esse mês, cada membro (se é que este termo tem aqui algum significado) dos CC fundiu-se na agitação política do movimento. E só depois do refluxo do movimento retomámos contacto de uma forma mais regular para publicar, até 1970, mais quatro números da revista.


Tentativa insólita, esta de recordar estes meses em que a vida se transformou de um modo radical. Para além da riqueza dos encontros e das discussões, dos desejos de revolução, da fraternidade, dos amores e da intensidade dos momentos, se quisesse condensar a experiência de Maio de 68 numa ideia, diria que é o sentimento único e exaltante de ter vivido um tempo diferente que mais me marcou. Um tempo simultaneamente intenso e lento, em que o presente não estava separado do futuro, durante o qual nos cruzámos com centenas de outros seres tão transformados como nós próprios, os conhecemos, debatemos com eles.  
 

O nosso posicionamento ao lado das correntes revolucionárias anti-bolcheviques foi um processo natural, deixando definitivamente de parte guevarismos, maoismos e mesmo trotskismos (curiosamente ausentes nos meios de exilados portugueses que encontrei, embora Trotski tivesse aí algum crédito). Descobri a revolução alemã de 1918 e os escritos de Rosa Luxemburgo, os dos comunistas de conselhos, a revolução húngara de 1956 e as primeiras fissuras no bloco soviético. Vivi pela primeira vez a fraternidade dos companheiros anarquistas, um anarquismo que fazia uma ligação não conflitual com o marxismo heterodoxo por onde eu andava. O meio onde nos movíamos era o dos companheiros do 22 Mars, da revista Noir et Rouge, de Informations et Correspondance ouvrières, do Groupe de Liaison et Action des Travailleurs, da revista Révolution Internationale. Todos estes contactos e debates se foram evidentemente encontrar a seguir nos textos dos CC


Nos primeiros números da revista, as análises de Fernando Medeiros e de Villaverde Cabral sobre a sociedade portuguesa haviam-se demarcado da prosa ideológica e rígida das correntes do comunismo ortodoxo e do maoismo. Partindo do estudo da economia portuguesa e da sua integração progressiva no capitalismo europeu, das «duas táticas da burguesia portuguesa», a revista permitira ultrapassar as visões moralizantes e maniqueístas do fascismo português e divisar as suas falhas e os seus limites. Ela inseria o microscópico caso português no movimento do capitalismo, analisando a partir daí as formas novas das lutas de classe que emergiam desde a década de 1960. Depois do Maio de 68, os artigos dos CC foram ainda mais marcados por uma visão internacionalista, inserindo a situação portuguesa numa perspetiva simultaneamente mais lata e complexa. É esta frescura e originalidade do trabalho do grupo que, em minha opinião, explica a atração que ele exerceu e o seu eco.


Alguns meses depois do Maio de 68, por ocasião de uma infrutífera tentativa de prosseguir estudos universitários – rapidamente abandonada por motivos de sobrevivência material, mas também por causa da minha inadaptação ao enquadramento escolar -, encontrei João Freire, outro desertor da marinha portuguesa. Tornámo-nos amigos e João Freire passou também a integrar o coletivo do grupo, onde viria a desenvolver grande atividade. Juntamente com ele, concebemos o projeto de uma coleção de textos (Luta de classes), pouco conhecidos ou ignorados, do movimento revolucionário. Daí resultou a publicação de dois volumes : Marxismo Contra Ditadura, provavelmente um dos primeiros textos de Rosa Luxemburgo editados e difundidos em português; e, depois, Textos Revolucionários, seleção de panfletos, excertos e proclamações de movimentos desde a Rússia de 1905 a Maio de 1968 em França, passando pela Revolução Húngara de 1956. 

A seguir a Maio de 68, Hipólito dos Santos também se juntou aos CC. Debaixo de uma discrição aparente e de uma reserva tranquila, havia toda uma história de experiências conspirativas (designadamente a revolta de Beja em 1961), assim como de contactos com os meios militantes passados e presentes. Conhecia sobreviventes do sindicalismo revolucionário, mas tinha também os seus créditos junto de grupos que, cansados da rotina dos compromissos políticos das forças de esquerda, haviam empreendido ações diretas contra um regime assediado (designadamente a LUAR, Liga de União e Ação Revolucionária). Assim, foi no átrio do hotel onde João Freire trabalhava como rececionista noturno, que conhecemos Reis Sequeira, velho militante anarco-sindicalista do sindicato dos corticeiros que vivia então em Paris e que acompanhara o Maio de 68 com entusiasmo. Ele fornecia-nos uma peça que faltava no puzzle do nosso percurso, dando uma continuidade mais coerente ao nosso olhar sobre a sociedade portuguesa. 

Finalmente, outros jovens exilados, estudantes ou não, em França mas também na Alemanha, na Bélgica, na Suécia e na Inglaterra, haviam descoberto a revista e contactado o grupo. E o mesmo aconteceu com pessoas isoladas, que tinham abandonado as velhas organizações e que conhecêramos na rua e à porta das fábricas, nas discussões e debates que abundavam, incluindo alguns maoistas cujas convicções ortodoxas haviam sido momentaneamente abaladas pelo Maio de 68. Existia assim um pequeno meio fora da zona de influência do marxismo-leninismo, no qual circulavam novas ideias, fervilhante de iniciativas e de atividades. Sem esquecer os laços com todos aqueles e aquelas que nos liam, nos escreviam e distribuíam a revista em Lisboa.


A atividade da quase totalidade das correntes políticas no exílio estava impregnada de nacionalismo e de um patriotismo folclórico. Nos anos que se seguiram ao Maio de 68, havia dois grupos que rejeitavam com intransigência estas posições de recuo e de fechamento: os CC e um círculo próximo das ideias situacionistas - Américo Nunes, António José Forte e Carlos da Fonseca. Entre os dois tinham-se estabelecido laços informais, simultaneamente próximos e conflituais, que passavam muitas vezes por animosidades pessoais e por problemas de ego. No inverno de 1968, foi apresentada uma lista às eleições para a direção da UEPF (Union des Etudiants Portugais en France), até aí controlada pelo partido comunista. A lista tinha como programa único a proposta de dissolução pura e simples dessa ridícula estrutura burocrática. Sinal dos tempos, a lista encabeçada por José dos Santos bateu a dos maoístas e a dos comunistas. Uma vez eleitos, proclamámos a dissolução da dita associação, num remake do que os situacionistas haviam feito em Estrasburgo com a UNEF (Union nationale des étudiants de France), para consternação dos grupos e grupúsculos especializados na atividade política responsável e razoável que viam nesta estrutura um trampolim para as suas futuras carreiras politiqueiras.


Por alturas de 1970, a chegada de jovens proletários movidos por uma revolta de classe intuitiva deu um novo impulso à atividade do grupo dos CC. Estou a pensar no meu amigo Maurício Martins, que nos deixou brutalmente em Fevereiro de 1970, e no José Maria Carvalho Ferreira, cuja energia inesgotável e recusa do compromisso arrebatava o coletivo da revista. 

Animado pelas ideias de Maio de 68, pelo alargamento dos contactos e pelo eco que as ideias da revista suscitavam em Portugal onde o estado de crise do regime era cada vez mais evidente, o grupo dos CC redobrou de energia e de iniciativas, algumas das quais bastante originais. Em 1971, utilizando os contactos que João Freire e eu próprio tínhamos conservado na marinha, conseguimos enviar para Lisboa malas a abarrotar de propaganda política, transportadas a bordo de um submarino comprado pelo regime salazarista à França democrática! Apesar dos meios limitados e do impacto reduzido da distribuição, essencialmente concentrada no meio estudantil, as ideias faziam o seu caminho e começavam a inquietar o partido comunista, que, malgrado o apoio da «pátria do socialismo», não tinha acesso a submarinos.



IV


O Maio de 68 havia propulsionado a atividade da revista no sentido de uma perspetiva internacionalista que iria, como é natural, fazer rebentar o quadro em que se inserira nos seus primórdios. Os membros mais ativos do coletivo empenhavam-se ao lado de camaradas exteriores aos CC em projetos sem ligação direta, imediata, com a situação portuguesa. Um exemplo disto, entre outros, foi a publicação de uma coleção de brochuras - «Lutte de classe internationale». Assim, em 1970, foram editados três títulos : Classe ouvrière et capital en Belgique, sur la grève des mineurs du Limbourg; Etats-Unis: luttes ouvrières en 1970; e Portugal: lutte de classe et guerre coloniale. Ao mesmo tempo, as nossas análises da situação portuguesa foram retomadas noutras publicações. No entanto, a necessidade de uma publicação orientada para Portugal não tinha sido posta de parte, como atesta o aparecimento de Os Proletários Não Têm Pátria, cujo primeiro número saiu em fevereiro de 1974, por iniciativa de José Carvalho Ferreira. 

Mas, após o Maio de 68, o que mais interessou os membros dos CC foi o movimento social em Itália, em particular as suas correntes e grupos mais radicais, Potere operai e Lotta continua. A leitura inovadora que estes grupos faziam de Marx e de Lenine, a sua análise política da questão da violência, pareciam trazer elementos novos. Sobretudo Villaverde Cabral e João Freire haviam estabelecido contactos regulares com alguns militantes e teóricos daquilo que se designava por «autonomia italiana», com os quais se iniciou um debate. Em 1970, podia mesmo considerar-se que a revista estava próxima desta corrente. Pela minha parte, tinha-me relacionado com os grupos franceses das correntes do marxismo antiautoritário, do comunismo antibolchevique, que descobrira no Maio de 68. Através de companheiros da ICO, tinha conhecido a obra de Paul Mattick e de outros teóricos comunistas de conselhos, que se me afigurava a corrente mais coerente com o meu percurso passado e com a rejeição do voluntarismo e dirigismo da política leninista. 


Quando se deu a Revolução dos Cravos, o grupo da revista já não existia, mas os laços nunca se romperam com Fernando Medeiros, Alfredo Margarido, José dos Santos e Alberto Melo, que, todavia, se haviam distanciado do ativismo do núcleo de que eu fazia parte. Aliás, alguns destes laços reativaram-se durante os dois anos de agitação social e política em Portugal em torno de José Maria Carvalho Ferreira e dos seus inúmeros contactos no seio do mundo operário na região de Lisboa e igualmente com João Freire. Este, tendo afirmado progressivamente o seu empenhamento na corrente anarquista, teve um papel essencial no reaparecimento de publicações anarquistas depois do 25 de Abril. Finalmente, as escolhas de uns e de outros, entre aqueles que, minoritários, decidiram permanecer em França, e os que optaram por um regresso a Portugal, desempenharam também um papel no enfraquecimento dos contactos. 

As circunstâncias haviam, pois, mudado. E, tendo nós contribuído para a mudança das circunstâncias, as novas circunstâncias tinham-nos igualmente mudado…


Os membros dos CC evoluíram de acordo com as suas respetivas opções de vida. Alguns distanciaram-se da atividade política, outros, pelo contrário, foram atraídos e devorados pela pequenez da política institucional, que, no entanto, tão duramente haviam criticado antes… Uns permaneceram fiéis às suas paixões de emancipação social, outros orientaram-se para outras atividades e novas prioridades. 


Os textos dos CC encontram, quarenta e seis anos mais tarde, novos leitores, o que mostra que, desta aventura, fica o trabalho crítico produzido por um pequeno grupo de pessoas, que, num dado momento, se encontraram na encruzilhada de diferentes caminhos. 

Éramos o produto de uma sociedade que atravessava uma longa noite totalitária, marcada pelo sistema iníquo do colonialismo e das suas guerras. O exílio havia-nos emancipado da estagnação sufocante. Os membros dos CC tinham então metido ombros à análise dos sinais de decomposição e rutura que se observavam na sociedade portuguesa. Longe de Portugal, puderam libertar-se da oposição restrita fascismo-antifascismo que paralisava a arma da crítica. Para se desembaraçar da língua de pau marxista-leninista, os CC tinham de iniciar a sua crítica, bem como a dos regimes que dela se reclamavam. E o coletivo da revista tinha acabado de encetar este caminho escarpado quando se viu projetado no turbilhão revolucionário de Maio de 68, onde a subversão da vida e do mundo estava na ordem do dia. E então todas estas questões se tornaram mais claras.


O nosso otimismo depois desta experiência toldou indubitavelmente a nossa capacidade de avaliar até que ponto o sistema se podia autotransformar e sobreviver. Foi o que confirmou, designadamente, a evolução subsequente ao 25 de Abril de 1974 em Portugal, onde a vitória da alienação mercantil escondeu o atolamento do país numa estagnação de um outro tipo, a da mediocridade e do cinismo da democracia parlamentar, que nos conduziu diretamente ao desastre que se exibe perante os nossos olhos. 

Hoje em dia pode ver-se que a consolidação do sistema era apenas aparente e escondia a sua fragilidade e a sua natureza mortífera. A promessa do bem-estar mercantil transformou-se em ameaça de empobrecimento generalizado no quadro do capitalismo globalizado, onde Fukushima e Guantanamo são rostos inesperados do progresso democrático.




Jorge Valadas